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Redes sociais, proximidade e ausência
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Redes sociais, proximidade e ausência

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Seres humanos são biologicamente sociais. Sob o ponto de vista neural, o que você acha de si mesmo tem forte ligação com o que acha que seus pares próximos pensam de você. Há também uma área específica no cérebro que se ativa quando se vê um rosto (ou algo que pareça um rosto), e outra que só está ativada quando se está em uma interação social, real ou virtual. Em jogos que envolvem interações sociais, respostas injustas ativam a ínsula, estrutura do cérebro envolvida em alerta e percepção de dor. Essa área é mais fortemente acionada quando o indivíduo se acredita jogando com uma pessoa do que quando jogando com o computador. Por fim, manter interações estáveis com outras pessoas está associado ao prazer, enquanto sua ausência está ligada a uma variada gama de alterações psicofisiológicas, como depressão, ansiedade e estresse. E a dor que se sente com a exclusão de um grupo social leva a chamada “dor social”, envolvendo no cérebro circuitos muito similares aos ativados com um desconforto físico de lesão por queimadura ou corte em um dedo. Ou seja, há uma base biológica para a ligação social universal que se vê na espécie humana.

Até décadas atrás, indivíduos interagiam com poucas pessoas durante um dia comum. Sabiam de suas vidas, elas das deles, compartilhavam as histórias boas, as ruins e as nada especiais, que são as mais comuns. Hoje, isso mudou. Você pode falar e ver amigos que estão a milhares de quilômetros, de graça. Pode jogar virtualmente. Compartilhar fotos, piadas, notícias. Pode também ver como a vida de alguns deles é especialmente feliz, com viagens, aniversários, casamentos, aventuras, comidas deliciosas e muita harmonia. O montante de informações disponíveis de grupos sociais a que se pertence aumentou, e é maior do que o mais popular dos pajés seria capaz de ter.

Pesquisas sugerem que essa intensa possibilidade de ver a vida do outro, com quem não se tem contato real, pode trazer ansiedade e frustração. Não por inveja, mas pela comparação quase involuntária entre a própria vida e a vida deles, e pelo medo de se ficar de fora do que está acontecendo (fenômeno conhecido como FOMO – fear of missing out – prima-irmã da dor social). Antes da Internet (e sem ter que realizar uma ligação telefônica), uma pessoa não sabia o que aquele amigo que ela vê de vez em quando estava fazendo enquanto ela estava em um bar com outro amigo, ou quando estava exausta devorando uma pizza fria no chão da cozinha. Havia um único mundo acontecendo naquele momento. Hoje, há vários. Notificações fazem o celular vibrar, chamando a atenção automática 24 horas por dia. Entretanto, o sistema nervoso que lida com isso é aquele que evoluiu na floresta, sem Internet, com apenas um mundo, e os pares de uma mesma comunidade por perto. Interações virtuais se limitavam a momentos de introspecção.

Como sempre, há o outro lado da moeda. Redes sociais aproximam pessoas distantes, trazem a possibilidade de se saber como amigos estão sem precisar perguntar isso a eles, dão a chance de compartilhar coisas bacanas usando apenas as pontas do dedos, e trazem voz e articulação para qualquer indivíduo que tiver acesso à Internet. O ponto é: enquanto o indivíduo está tendo qualquer interação virtual, o mundo real em que está inserido continua lá, firme e forte à sua frente. As pessoas que estão fisicamente com ele, a paisagem da janela, a música ambiente, os olhos buscando seus olhos, todos estão lá. Não se pode dar um “stop” nesta vida para entrar na virtual. Responder em três segundos para o amigo do whatsapp – que mandou um comentário engraçado – pode custar deixar de ouvir o amigo que está à sua frente. E quando as mensagens começam a ser de vários outros amigos no whatsapp (ou qualquer outra forma virtual de interação social instantânea), a ausência se faz mais longa.

Mas não há milagre. O sistema nervoso não tem fontes ilimitadas de recursos para processar informações. A fonte de atenção é como uma torta: não importa se estão chegando várias pessoas para comer, ela vai ter sempre o mesmo tamanho, e as pessoas terão pedaços menores para si conforme aumenta o número de convidados. Se uma pessoa lê uma mensagem no celular e responde enquanto está com outras pessoas, não ouve bem comentários que estão fazendo no mundo físico e não interage com qualidade. A longo prazo, isso pode tornar superficiais os contatos reais e prejudicar a qualidade de ligação social entre indivíduos que estejam fisicamente juntos. Estudos recentes sugerem que o número de horas gasto em telas (TV ou celular) entre crianças têm uma correlação inversa com capacidade verbal e habilidades sociais, como a empatia. E a sensação de urgência de resposta aumenta a ansiedade, trazendo de carona problemas relacionados a dificuldade de concentração e memória.

Pelas próximas centenas de anos, por mais difícil que seja prever como a humanidade estará, é fácil estimar que o sistema nervoso seguirá muito próximo do que é hoje. Seres humanos continuarão buscando e precisando de interações sociais reais, sentindo dor quando deixados de lado, comparando-se com seus pares, e se alimentando dessas relações para perceberem a si mesmos. Ou seja, continuarão tendo capacidade cognitiva finita. Porém a médio prazo, vão acomodar o uso da tecnologia e redes sociais em suas vidas. Como tudo que o ser humano já inventou, de morfina a chocolate, alguns vão usar essa tecnologia de maneira saudável, outros não. Uma certeza existe: redes sociais virtuais, que nasceram com a Internet, mudaram a forma como os indivíduos se comunicam, o alcance de sua voz e o que escolhem ouvir. Aqui também haverá um caminhar de evolução das formas de comunicação com esses indivíduos, que apesar de terem as mesmas bases biológicas de ancestrais que não viram a criação de pontes, podem escolher a que se conectam, de tal forma que não existiu até agora na história. Mas, como com seus ancestrais, sempre terão a necessidade de um aperto de mão.