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A Oportunidade do Azeite
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A Oportunidade do Azeite

Por Raquel Coelho

Num país em que a gastronomia ocupa um papel tão importante nas tradições e vivências do seu povo, o azeite é um pilar fundamental da cozinha portuguesa. Tendo por base uma dieta mediterrânea, os portugueses encontraram variadas formas de incluir este produto nas suas receitas. Quer seja num refogado, num salteado, em refeições no forno, no tempero de saladas, numa maionese caseira, no pão ou no típico bacalhau, o azeite é, sem dúvida, o “ouro líquido” da cozinha portuguesa. No entanto, esta categoria não tem sido ultimamente o “ouro líquido” nas caixas registadoras. De forma a compreender o porquê, é necessário analisar os desafios e as potenciais soluções para este mercado.

Segundo dados da Nielsen, o azeite é um alimento básico que consegue chegar a 70% dos lares em Portugal, apresentando crescimentos das vendas em volume. Assistimos, no entanto, a um decréscimo das vendas em valor, que se deve essencialmente a uma menor compra média em euros, associada a um decréscimo no preço.

Annual Dimension and Evolution

Na realidade, de acordo com o relatório Changing Consumer Prosperity, da Nielsen, sabemos que mais de metade dos consumidores portugueses descrevem positivamente a sua situação financeira atual e que 1/3 assume gastar mais em alimentação do que há 5 anos. 87% dos consumidores portugueses afirma estar disponível para pagar um preço premium por produtos com maior qualidade. Então, por que razão estão os consumidores portugueses a gastar menos na categoria enquanto se sentem mais confiantes em relação às suas finanças?

Em muitos países, o Azeite português é considerado um produto premium. No entanto, estando os portugueses tão habituados a tê-lo à mesa e num mercado em que as promoções são tão elevadas (75% das vendas de azeite são promocionadas), esta categoria acaba por se afastar deste posicionamento de exclusividade em Portugal. Cabe então às próprias marcas investirem em estratégias que deem a conhecer melhor a história e os benefícios daquele que é o “ouro líquido” da cozinha nacional.

Volumes crescem, mas abaixo da média dos BGC. Quais são os desafios do Azeite?

Embora registando crescimentos em volume neste ano, o consumo de azeite em quantidade cresce ainda abaixo dos Bens de Grande Consumo, sendo as marcas da distribuição as maiores impulsionadoras deste crescimento, comparativamente às marcas de fabricante, numa categoria que se tem mostrado sensível ao preço e às promoções.

Numa constante procura pelo equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, os consumidores, agora com mais disponibilidade financeira, mostram-se dispostos a pagar mais por produtos ou serviços que permitam poupar tempo e acrescentem conveniência. Com efeito, assistimos a crescimentos nas refeições prontas, refrigeradas ou congeladas, no take away, nos serviços de entrega e nas refeições fora de casa, que poderão estar a provocar algumas perdas nos produtos básicos que servem de base à preparação das refeições, como é o caso do azeite. De forma a combater estes desafios, é crítico enfatizar os únicos benefícios deste produto.

A necessidade de uma gordura percecionada como saudável

A busca contínua por produtos saudáveis e de origem natural faz com que os consumidores procurem também estar mais informados. Recordamos, a título de exemplo, o caso do Óleo de Côco, possivelmente considerado pelo shopper como gordura substituta ao azeite, que registou crescimentos significativos resultantes de um fenómeno de moda em torno desta categoria. No entanto, registam-se já quebras a duplo dígito nesta categoria.

Para além de todos os usos que o Azeite pode ter, esta é considerada uma das gorduras mais saudáveis do mercado. No entanto, estando mais preocupados com uma alimentação saudável, os consumidores procuram evitar alguns ingredientes indesejáveis ou considerados menos saudáveis, como é o caso do sal, do açúcar ou das gorduras.

O Azeite “de mãos dadas” com o Natal

A quadra dedicada aos momentos em família acaba por gerar, nas semanas que antecedem o Natal, uma maior procura por este produto. Esta é uma época em que tipicamente se cozinha mais e se cozinham pratos que normalmente vêm acompanhados de muito azeite, exemplo evidente do bacalhau. Apesar de ser uma categoria sensível ao preço e às promoções, o Azeite atinge tradicionalmente no Natal picos máximos no valor das suas vendas.

Quais são as oportunidades de crescimento para o Azeite?

A qualidade reconhecida do Azeite produzido em Portugal permite perspetivar interessantes oportunidades de crescimento para esta categoria. Tratando-se de um produto tão indissociável da cozinha portuguesa, o Azeite continua a desempenhar um papel de destaque na gastronomia, na tradição e no consumo em Portugal. A comunicação dos benefícios do azeite e da sua relação histórica à tradição e cultura do nosso país, assim como a ativação de campanhas em momentos-chave para esta categoria, como é o caso do Natal, poderão ser oportunidades para um mercado que oferece aos consumidores um verdadeiro “ouro líquido”.

Uma vez que os volumes de azeite registam no mercado português um dinamismo positivo, cabe então às marcas encontrar estratégias que potenciem o valor deste mercado, seja via aumento de preço, redução de nível promocional e criação de novos momentos de consumo baseadas nas novas necessidades de um novo consumidor que procura saúde, conveniência e qualidade.

Uma versão deste artigo foi originalmente publicada na revista Grande Consumo.